Entrevista

Das empadas no Maranhão até o 1º game de realidade virtual na Inglaterra: Conheça Ana Ribeiro

Maranhense de São Luís, Ana Ribeiro tem 31 anos e é formada em Psicologia pela Universidade Ceuma. Trabalhava no Tribunal de Justiça local e vendia empadas no trabalho como servidora pública. Com o sucesso dos salgadinhos, foi fazer um curso profissionalizante. Descobriu que não queria nada daquilo, pois sempre gostou de videogames. Largou um emprego público estável e com bom salário para estudar mestrado em Design e Desenvolvimento de Jogos na National Film and Television School. Atualmente mora em Beaconsfield, Buckinghamshire, no Reino Unido, e desenvolveu o primeiro game brasileiro para Oculus Rift, chamado Pixel Rift. O jogo homenageia a geração de gamers que cresceu nos anos 80 e 90 com referências a Game Boy e jogos 2D. A ideia foi elogiada por Callum Underwood, um dos desenvolvedores do Oculus.

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Geração Gamer entrevistou Ana Ribeiro para saber sobre sua inusitada história, das empadas até o primeiro game que ela fez para Oculus Rift. Confira.

Ana, me conta melhor quem é você? Por que você decidiu largar um negócio de empadas em São Luís para ir até o Reino Unido?

Eu era funcionária pública concursada e trabalhava no Tribunal de Justiça. Lá eu digitava documentos para juízes e comecei a vender empadas, porque estava cansada daquele trabalho. O negócio das empadas, chamada Kero Mais, cresceu e foi dos meus colegas até o corredor do Tribunal e até pra outros lugares. Cheguei a vendê-las até no TRE de São Luís. Vendia quatro mil empadas por mês. Virei mais empresária do que funcionária. Coloquei até empregados no negócio e comecei a fazer curso no Sebrae, chamado de Empretec. Lá eu abri minha mente para descobrir o que eu realmente queria fazer da vida. Eu imaginava o negócio das empadas crescendo, mas eu não queria fazer empada sempre.

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E o que você queria, afinal de contas?

A vida toda eu joguei videogame. Veio a ideia de largar tudo e estudar jogos. E eu também queria viajar. A Europa é um lugar central e eu sempre quis viajar muito. Aqui você pega um trem e muda de país. Se eu não mudasse desta forma, eu iria me acomodar e não mudaria mais. Não tenho filhos e nem sou casada. Se desse errado, eu voltava pro Maranhão pra vender empada. Tem gente que acha maravilhoso ter a estabilidade do serviço público. Para mim aquilo era uma prisão. Aquele trabalho era muito monótono, a gente usava até a mesma fonte para digitar a documentação dos juízes, que era a Times New Roman. No Tribunal eu contava as horas pra sair do serviço.

Pixel Rift é seu trabalho de conclusão de curso na Inglaterra. Você pretende monetizar o jogo de alguma maneira?

Amanhã eu tenho reuniões com investidores e isso pode ajudar no meu negócio. Mesmo que eu não feche contrato, eu tenho planos de encontrar diferentes formas de financiá-lo diretamente com o público. No entanto, se injetarem dinheiro, tudo será mais rápido com o Pixel Rift.

O que você fez no Pixel Rift? Você ficou responsável pelo design? Você o programou? O que você fez?

Eu fiz 80% do Pixel Rift e eu não acho que ele está perfeito, mas futuramente terei trabalhos de freelancers para lançar o primeiro episódio de forma comercial, além do trailer que já lançamos. Mas eu programei e tentei executar minhas próprias ideias nele. Coloquei também animação e efeitos, sprite por sprite, na engine Unity, com a ajuda a ajuda de estudantes que fizeram o curso de cinema comigo na Inglaterra.

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Quais foram os desafios ao fazer um jogo deste tipo no Oculus Rift?

O mais desafiador ao trabalhar com o Oculus Rift foram os bugs que não tinham solução nem pesquisando na internet. Já aconteceu de eu ter que cuidar de erros sem ajuda de ninguém. Apelei para a comunidade de desenvolvedores em muitos casos, porque é o problema de qualquer equipamento novo. É desafiador, mas é muito gratificante. Eu gosto de trabalhar com coisas novas e é bom investir em realidade virtual agora, não só na parte de games, mas também na parte de filmes e educação. Até a NASA tá de olho nisso.

Você usa seus conhecimentos de psicologia ao fazer games?

Não intencionalmente, mas estou planejando usar na minha dissertação que será entregue junto com o Pixel Rift. A ideia que eu tenho no documento é estudar uma método de terapia com Oculus Rift para evitar o Alzheimer, mas nem tenho certeza se este estudo vai progredir neste sentido.

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O seu jogo de uma certa maneira é uma homenagem à “Geração Game Boy” dos anos 90, com muito material nostálgico. Você vê seu game desta maneira? 

Ele é totalmente isso e o Pixel Rift melhora os gráficos conforma você avança nele, assim como a vida da moça também vai evoluindo. Estou pensando inclusive em fazer uma propaganda dele que vai parecer aqueles programas dos anos 90 que falavam sobre videogames. Quando eu tive a ideia de fazer um jogo, eu sempre tive vontade de fazer um que traçasse minha experiência de gamer. Ninguém vai viver essa experiência desta forma novamente. Ninguém vai ver os games explodindo como nós vimos. A nossa geração viu os videogames nascerem. O Oculus Rift é perfeito para simular isso, teletransportar a pessoa para essa outra realidade. Ele funciona como uma máquina do tempo.

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Você transportar esse games para outras plataformas?

Pretendo fazer algo pro Samsung Gear VR com meu atual jogo, mas preciso de um celular Samsung para fazer isso. Seria muito bom que eu conseguisse transpor porque o Gear VR é portátil e não tem muitos cabos. Eu fiz também um pequeno jogo Pixel Rift em 2D para “emulador” de iPhone e Android. Será como um clássico dos anos 80, de graça e só pro pessoal curtir no lançamento. As crianças podem levar pra sala de aula e se transformarem na minha personagem. É legal a ideia de um emular um jogo “antigo” no meu game. A versão PC será necessária, embora o game perca muito de sua experiência sem o Oculus Rift. Farei isso mais para alcançar outros públicos que não usam óculos de realidade virtual.

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Você pensa em fazer uma versão diferente para o Morpheus da Sony?

Eu quero, mas dependo da aprovação deles.

Quando o jogo chegará ao grande público?

Provavelmente em julho de 2015 o Pixel Rift deve chegar ao público.

Vi que você faz cosplays. Quais personagens você gosta mais? 

Gosto da She-Ra de He-Man, que fiz cosplay. Tive a ajuda da minha mãe, que é artista plástica, mas nunca fui profissional nessa área. Já me vesti de Sakura-chan de Naruto.  Agora eu faço cosplay do personagem do Pixel Rift, que é muito parecido com Mega Man.

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Você pretende ficar no Reino Unido ou tem planos para voltar ao Brasil?

No momento eu tenho mais oportunidades aqui na Inglaterra. A área de realidade virtual está mais em alta na Europa. A ideia é tentar ficar aqui até um ou dois anos. O que está acontecendo é que tem eventos que eu estou sendo convidada para participar e contar minha experiência. Esses contatos eu não tenho tanto no Brasil. Comecei a fazer jogos fora do meu país. Meu time de desenvolvimento também está aqui. Eu gostei muito dos meus colegas de curso e eu gosto daqui. Não sei se volto ou se moraria no Maranhão. Talvez iria para o Sul ou para São Paulo, porque tem mais oportunidades para games do que o nordeste brasileiro.

Pixel Rift já está no Steam Greenlight. Conheça o site oficial.

Veja um vídeo de Pixel Rift em funcionamento.

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6 comentários sobre “Das empadas no Maranhão até o 1º game de realidade virtual na Inglaterra: Conheça Ana Ribeiro

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