Entrevista

“A Superinteressante era a melhor marca brasileira para fazer newsgames”, diz jornalista que trabalhou na revista

Fred Di Giacomo Rocha tem 32 anos, fez Curso Abril de Jornalismo, trabalhou no núcleo jovem e infanto-juvenil da editora, passando por revistas como Superinteressante, Mundo Estranho e Guia do Estudante. Na Super, o jornalista manteve o blog Newsgames até 2015. Ele saiu da Editora Abril, mas lançou o jogo Filosofighters e Science Kombat, depois que já estava fora.

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Além dos jogos baseados em notícias e em temas de conhecimento, Fred cuida do Glück Project com sua esposa Karin Hueck, que aborda felicidade após uma viagem dos dois para Berlim. Hoje ele é pai de Benjamin, que nasceu em janeiro de 2016.

Geração Gamer conversou com Fred Di Giacomo sobre a importância dos newsgames e como eles tornaram a Superinteressante um destaque entre os veículos de mídia ao apostar em jogos na internet.

Vi a palestra do Rafael Kenski, quando ele ainda estava na Abril como editor, e acompanhei alguns newsgames na Superinteressante. Como surgiram essas ideias dentro da redação?

Cara, as primeiras ideias de jogos jornalísticos digitais mais elaborados apareceram em 2007 no Brasil, mais ou menos. Foi quando o G1 lançou seus Nanopops, a Aventuras na História fez o Soviets: O Quebra-Cabeça Vermelho, iniciativa do Felipe Van Deursen e da Renata Aguiar, e nós, na Mundo Estranho, fizemos o StripQuiz, uma ideia que veio do programador Bruno Xavier.

O caso do StripQuiz e do Soviets posso dizer que era uma coisa bem experimental. Éramos um bando de jornalistas, programadores e designers nerds que curtiam games e queriam se arriscar com outros formatos. Minha escola pra isso foi ter mestrado muito RPG, o que me deu uma noção de mecânica e storytelling. Eu fui contratado pela Mundo Estranho, em 2006. Eu era bem molecão e meus chefes na época, o Adriano Silva e o Fabio Volpe, me deram muita liberdade. Fizemos a primeira grade de vídeos diários da Abril, vários infográficos online, porque o pessoal da ME era especialista no formato. Os games foram um passo adiante nesses formatos.

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Paralelo a isso, o jornalista Rafael Kenski, da Superinteressante, estava desde 2007 experimentando ARGs (Alternate Reality Games), que eram jogos bem caros e complexos que misturavam realidade e ficção. Ele fez o Zona Incerta pro Guaraná Antártica e contava uma história de uma empresa fictícia americana que queria comprar a Amazônia. Isso levou o Arthur Virgílio a fazer discursos inflamados no senado brasileiro contra os “estrangeiros que queriam roubar nossa floresta”. A Folha chegou a noticiar um protesto fake contra o Bush como se fosse real.

Em 2008, surgiu a ideia de fazer um ARG editorial para uma matéria de capa da Super sobre polícia forense, inspirada na série CSI. Só que os caras não tinham grana pra fazer uma produção como a do Guaraná Antártica e o Kenski resolveu produzir, então, um ARG pra ser jogado no computador. Aquele acabou sendo o primeiro newsgame bem produzido do Brasil, chamado CSI: Ciência Contra o Crime.

O game foi um sucesso e o Rafa achou que tinha criado um estilo novo de jornalismo. E ele resolveu investir forte nisso, fazer os jogos jornalísticos serem uma marca da Super. No final do ano, eu fui trabalhar com ele, como editor-assistente, e criamos o Jogo da Máfia juntos. Gerou um monte de resenhas positivas e o pesquisador André Deak cravou que a Super era a melhor marca brasileira a fazer newsgames. Aí, a gente descobriu o termo, descobriu que esse tipo de jornalismo já existia e descobriu que tinha uns gringos como Ian Bogost e Gonzalo Frasca trabalhando com isso desde 2003, mas sem muita repercussão mainstream. O Rafa trouxe o game designer Fabiano Onça pra nos dar um curso e começamos a pirar em fazer jogos fodas.

E no que esse sucesso resultou?

Bom, em 2009 o Kenski foi estudar na London School of Economics e eu assumi a equipe. Minha missão virou transformar aquela equipe multimídia que cuidava dos sites jovens da Abril na maior produtora de games jornalísticos do mundo. E a gente fez isso. Estudamos, praticamos, fizemos mais de uma dezena de jogos até que, em 2011, lançamos o Filosofighters que era um jogo de luta com os maiores pensadores do ocidente. Foi um viral grande, uma das maiores audiências da Super no ano. Foi finalista do BIG Festival, vencedor do Prêmio Abril e primeiro game nosso que teve repercussão internacional, com resenha na PC Gamer inglesa, post em blog do Le Monde, etc.

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Tinha até uns sites católicos que piraram em “massacrar o ateu Marx com a força de Santo Agostinho”. Pro lançamento a gente pensou uma estratégia transmídia bem legal que incluía, além do game, um teaser no Youtube, perfis de todos filósofos no Twitter, um tumblr com frases de cada um e um infográfico de duas páginas na revista.

Comecei a ser entrevistado por sites gringos que estavam interessados nessa história de “jogos brasileiros que misturavam informação e diversão”. Agora, com o Science Kombat, que ainda nem saiu, tivemos o maior hype de todos. Vários sites gringos, desde Mashable, Verge, Kotaku até Gizmodo, publicaram nossas animações. Agora a Vice americana até fez um perfil comigo no Creators Project, sobre meus trampos de escritor multimídia.

Você acredita que as iniciativas como a dos newsgames repercutiram positivamente na mídia brasileira?

Acho que sim, eu costumo dizer que os newsgames brasileiros tiveram um boom em 2011. A crise da mídia não estava tão pesada e os caras viram nosso trabalho repercutir lá fora, saca? Vários portais e jornais também tinham montado times de infografia e especiais, que estavam ganhando prêmios no Malofiej e no SND.

Nesse ano, você teve o primeiro newsgame da Globo chamado Missão Bioma, que era bem pretensioso até. Teve o Combate de Barro Vermelho da Zero Hora, que é muito divertido. O Estadão fez vários estilo Super Trunfo e a Abril lançou um social game da Contigo!, em 2012, com alto investimento. Chama-se Cidade dos Famosos.

Os newsgames renderam muitos TCCs e teses de mestrado, também por aqui. Dou palestras e workshops sobre o tema sempre. Vai ter Oficina Imprensa no dia 9 de abril. Interesse pelo assunto rola.

O duro é que é um formato caro, tem pouco gamer nas redações e a imprensa anda meio quebrada. Hoje não existe um boom de jogos jornalísticos, mas muita gente sabe o que é e se interessa. Eu fiz um game pra Galileu em 2014 sobre o Muro de Berlim chamado Pule o Muro.

No dia 29 de março vai sair o Science Kombat da Super. No entanto, hoje vejo mais indie games que flertam com o noticiário, como Zangief Kid, Game da Gente Diferenciada, Gringo Hero e outros, do que produções dos grandes veículos informativos. A influência existe, mas ela saiu um pouco da imprensa.

Na sua opinião, você acredita que faltam newsgames em publicações daqui e do mundo? Somos conservadores ao apostar apenas em infográficos e em imagens?

Acho que o jornalismo mal aposta em infográficos, não é? O que rola muito são os testes, principalmente depois do BuzzFeed, que são sim próximos dos games. Acredito que deveríamos ter mais games, especialmente no celular. É válido também fazer mais reportagens interativas em mais formatos inovadores. A crise do jornalismo não é só de modelo de negócio, mas de formato.

A internet está matando o papel, mas ainda fazemos muito “jornalismo de papel” no online. Estamos descobrindo ainda todas possibilidades do meio digital. Eu achava que o podcast era um formato de nicho, mas o Serial quebrou essa visão. A Folha fez um belo trabalho com seus vídeos na TV Folha, achei legal a iniciativa da Pública com o Truco nas eleições, e com suas bolsas de minidocs.

Dá pra pirar mais e acho que muito da inovação está vindo da mídia independente, principalmente de blogueiros. O duro é o pessoal só querer clique a qualquer custo e ficar obrigando jornalista a fazer um milhão de posts irrelevantes e dezenas de galerias de fotos.

Desenvolvedores de jogos poderiam enxergar oportunidades com jornalistas e em empresas de comunicação?

Sim, mas é bom ressaltar que jornalismo paga mal. As empresas de games mais estruturadas vão trabalhar pra publicidade ou tentar editais. Acho que os desenvolvedores indies podem ver o jornalismo como uma área fértil para ter liberdade editorial e construir um portfólio. Existe o caso do Diego Sanches, que fez as animações e ilustrações do Science Kombat. O trabalho dele agora está em sites japoneses, tailandeses, alemães e americanos. Não vai faltar trabalho legal pra ele hoje em dia.

Você acredita no jornalismo como um meio para se educar, além dos próprios games?

Cara, eu acredito que o jornalismo é um meio para a sociedade se informar. Além disso, acredito que ferramentas jornalísticas e mecânicas de game podem ser usadas para educar no sentido de formar sim. Tanto com conteúdo didático de história ou ciências, quanto de formação profissional.

Minha vida profissional basicamente foi tentar traduzir conteúdos complexos de maneiras mais palatáveis, porque trabalhei muito com público jovem na Super, na Mundo Estranho e na Galileu. Também cuidei de conteúdo educativo no Guia do Estudante e no Énois. Isso é muito útil para a educação, né?

Agora, falando de games, eles têm um poder brutal de imersão e simulação que nenhuma outra mídia tem. Quantas madrugadas você passou jogando GTA V, por exemplo? Eu amo ler, mas nunca virei tantas madrugadas agarrado com o Joyce ou Bukowski. Tem muita gente usando isso pra fazer jogos educativos, jogos de ativismo, jogos de formação profissional e muitos outros.

Comercialmente, newsgames podem valer a assinatura paga de um site de notícias?

Pergunta de ouro (risos). O que eu vi foram newsgames patrocinados ou feitos por encomenda, como branded content, darem dinheiro. O Guia do Estudante era o site mais lucrativo da Abril e tinha muitos games, infográficos, testes e simulados. Eram muitas ferramentas interativas. A Petrobras começou a pedir newsgames pra Super depois do Filosofighters.

Newsgames valeriam a assinatura de sites de notícias se fossem tão viciantes quanto os bons jogos pagos. No meu caso, sempre mirei meus jogos nos light users. Eram jogos sem banco de dados e o cara tinha que resolver a parada em 15 minutos de sessão. Se alguém estiver disposta a bancar um LoL do jornalismo, um Red Dead Redemption do cangaço, acho que valeria a assinatura e podem me chamar pra ajudar que tô dentro (risos).

Você recentemente saiu da Abril. Além do Glück Project, sua investigação pela felicidade que você toca com sua esposa, tem outros projetos em mente? Algum envolve games?

Cara, eu sai da Abril de novo em outubro. Tinha pedido demissão antes, em 2013, pra tocar o Glück e voltei. Hoje, o Glück além da investigação sobre a felicidade, acabou se tornando o nome da minha empresa de comunicação. Através dela eu toco vários projetos. Sou coordenador da Escola de Jornalismo da Énois, uma ONG que dá aulas de comunicação para jovens da periferia de São Paulo. Nossas aulas começam terça que vem e a turma é bem massa.

Atualmente presto consultoria pra Elemidia, acabei de lançar um livro infantil  chamado “Felicidade Tem Cor” e meu novo de poesias, “Guia poético e sentimental pra sobreviver ao século XXI”, que deve sair pela Patuá este ano ainda. Também estou terminando de ajudar a construir um app para detectar daltonismo e outras deficiências visuais.

Na área dos games, estou aguardando o lançamento do Science Kombat no dia 29, que foi um jogo que criei pra Super com o Otavio Cohen. Hoje penso numa parada independente que vai misturar jornalismo, dados e poesia jogável. Minha ideia é começar a fundir jornalismo, games e arte, seguindo alguns experimentos como os haicais jogáveis do Ian Bogost. Vamos ver se dá liga.

Fred, você vê bons projetos de jornalismo que envolvem games?

Cara, acho que tem bons projetos que falam de games, como o IGN Brasil ou vocês do Geração Gamer. Falar de jogos brasileiros é fundamental. Eu era fã dos caras do Freeko. Teve o caso do Renato Bueno no Kotaku Brasil, que também era legal.

Não sou uber nerd das notícias de games, saca? Eu jogo desde moleque, leio sobre, pesquiso, mas meu tesão é contar boas histórias através das mecânicas dos jogos. Tô mais pra Heavy Rain e Full Throttle do que God of War e Mario.

Sobre jogos jornalísticos, acho que já deixei meio claro que podíamos ter muito mais, né?

Qual é a sua opinião sobre a cena brasileira de games?

Pra mim é mais fácil falar sobre a cena brasileira de newsgames. Não sou especialista no assunto, então considerem que estou apenas palpitando, ok? Eu acho que tem coisas interessantes rolando com indie games. Acho importante o MEC ter esses editais como o InovaApps que financiam serious games.

Tem oportunidade pra cacete com os ODAs (objetos digitais de aprendizagem). De forma geral, no entanto, falta grana. O lado indústria dos games ainda não chegou de fato. É difícil você viver da parada, poder se dedicar com tempo a um projeto grande.

O esquema ainda é de “muito amor e pouco grana” A galera boa acaba fazendo advergame, não tem muito jeito. A gente tem até o Fabiano Onça que ganhou prêmio na Alemanha com jogo de tabuleiro. Mas quem sabe disso?

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5 comentários sobre ““A Superinteressante era a melhor marca brasileira para fazer newsgames”, diz jornalista que trabalhou na revista

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