Entrevista

Moacyr Alves, da ACIGAMES, fala sobre associações, mercado e brigas

Texto originalmente escrito para o site Wii Are Nerds.

Figura conhecida em eventos de games, seja pela campanha Jogo Justo ou por estar envolvido na administração da Associação Comercial, Industrial dos Jogos Eletrônicos do Brasil (ACIGAMES), Moacyr Alves não perde a oportunidade de manifestar sua solidariedade com o Brasil e com a situação de quem quer fazer negócios neste segmento em nosso país. Ele é um defensor do país, seja no comércio ou na criação de jogos. Neste аnо, a associação de Moacyr conseguiu a abertura de audiência pública sobre o mercado nacional de jogos digitais, para debater a situaçãо do mercado brasileiro diretamente com políticos.

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Mas a história de Moacyr Alves não é composta apenas de sucessos. Antes de criar a ACIGAMES, a campanha Jogo Justo ganhou forma no segundo semestre de 2010, principalmente entre distribuidoras e comerciantes. Ele pretendia reduzir a carga tributária do preço de jogos e aparelhos de videogame, que ultrapassa 50% do valor e, em alguns casos, chega a custar mais de 100% sobre o valor do produto importado. Moacyr acreditava que, desta maneira, conseguiria incentivar o mercado de consumo e estimular novos talentos no Brasil. Passados praticamente quatro anos do projeto, Moacyr conseguiu apoio de alguns setores do governo, criou sua associação e ajudou empresários, mas não diminuiu significativamente o preço dos jogos. O PS4, da Sony, chegou ao Brasil por quatro mil reais no final de 2013, enquanto ele custa cinco vezes menos nos Estados Unidos.

Um painel dedicado à Moacyr e ao Jogo Justo foi aberto na Campus Party 2014. No debate, jornalistas como Gus Lanzetta (Lektronik e Rolling Stone), Caio Teixeira (Ex-Arena, do iG, atual Overloadr) Evandro de Freitas (99vidas), Arthur Zeferino e Marcellus Vinícius (GAMESFODA) fizeram uma crítica irônica ao presidente da ACIGAMES. Moacyr Alves diz que tudo foi uma brincadeira, e atribuiu ao governo a culpa pela ineficácia da campanha Jogo Justo.

Disposto a responder dúvidas de pessoas que o conhecem e de fornecer um panorama sobre o Brasil, Moacyr Alves nos concedeu uma entrevista. Ele não se esquivou de perguntas difíceis, mas deu seu ponto de vista sobre essa mesma história. Confira abaixo.

Você tem alguns problemas com grupos como a ABRAGAMES (Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais) e com algumas figuras da cena de jogos no Brasil. O que você acha das críticas que recebe? Acha que eles estão certos em cobrar mais do Jogo Justo? Ou são críticas infundadas?

Sinceramente não acho que eu tenho problema com a ABRAGAMES, porque fazemos nosso trabalho e eles fazem o trabalho deles. Algumas vezes, nós divergimos em alguns assuntos o que é natural. Já sugeri fundir as duas associações, porém houve uma resistência dos dois lados que inviabilizou uma fusão. O que eu posso falar mesmo da ACIGAMES é que ela é uma casa de trabalho e oportunidades, que comete erros e acertos mas nunca deixa de lutar pelo seu propósito. Quanto aos desenvolvedores acredito que seja uma questão interessante, a ACIGAMES tem hoje em seu quadro de filiados 28 desenvolvedoras de games no Brasil e estou com exatas 13 fichas de filiação de outras desenvolvedoras para estudar a entrada. Temos entre a desenvolvedora que mais rende no Brasil, que é a Hive Digital.

Algumas pessoas ficam perdendo tempo discutindo como “o Moacyr é mal-intencionado e não representa X ou Y porque falou isso ou aquilo”. Enquanto isso, não paramos de trabalhar e crescer e esse é um ponto visível. Alguns reclamam porque eu bloqueio certas pessoas mas acho que sou humilde o suficiente para assumir erros. Quem é que não erra, não é mesmo? E eu assumo todos os meus erros, acredito no aprendizado com as falhas e sempre estou disposto a repensar um posicionamento ou declaração. Mesmo assim, não parece haver espaço pra uma segunda chance com algumas pessoas no que se refere aos meus erros. Em muitos casos, os que criticam estão certíssimos, porém eles erram em como criticar, chegando ao ponto ridículo de prejudicar minha vida profissional e pessoal. A pessoa tem que segurar a responsabilidade de seus atos e algumas pessoas não tem a visão de como um simples post pode prejudicar todo um trabalho em andamento. Eu erro mas faço isso porque tento fazer algo pelo Brasil no mercado de games. Não quer errar? É simples: não faça nada.

Como você vê o Jogo Justo nos dias de hoje? Quais foram as principais conquistas? Por que nem todos os jogos estão com menos impostos? Por que ainda temos que gastar 200 reais em um lançamento de um jogo de um videogame de ponta?

O movimento Jogo Justo foi feito junto ao governo e muito pouco mudou. O motivo é simples: O governo não leva a sério a questão dos games no Brasil. Temos apoio de pessoas no governo que entendem o mercado e de seus problemas, gostam e simpatizam com o seu potencial, mas não têm influencia o suficiente para fazer a mudança. A revisão da tributação está indo a passo de tartaruga enquanto o mundo inteiro corre atrás de oportunidades nessa área.

Mas tivemos algumas conquistas. Antigamente os games eram parte da sessão de brinquedos, hoje eles são destacados separadamente em todas as lojas. Finalmente vamos ter games na Nomenclatura Brasileira de Serviços (NBS) no capitulo 15. Para vocês terem uma ideia da importância disso, todo o governo usa a nomenclatura para estudos e propostas em todos os setores e games não tinham sequer nada que mencionasse a sua importância. A NBS é a base da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM). Nela, você pode sugerir e mudar as taxas e alíquotas de impostos.

Outra conquista foi incluir os games na Lei Rouanet. Entramos no Programa de Aceleração da Pequena e média empresa (PAC-PME), um conjunto muito forte de empresas, associações e também de entidades que visam melhorar a tributação e que tem força suficiente de mudar as leis de mercado do país. Quanto à questão dos impostos, a falta de mudança acontece porque sem algo direcionado exclusivamente para o mercado de games, os preços não vão baixar nunca. A responsabilidade de reestruturação do imposto para games cabe ao governo e aos ministérios. Se as pessoas pagam hoje valores menores do que R$ 200,00 em jogos é porque as empresas estão buscando soluções. Muitos tratam esse mercado como “joguinho”, o que me deixa muito desanimado. Mas eu não tenho vontade nenhuma de desistir.

Como a Acigames faz pesquisas de mercado sobre vendas de consoles no Brasil? Quantas redes de lojas são consultadas? Você poderia me revelar os números de empresas envolvidas com a divulgação desses dados?

As grandes fabricantes ainda não fornecem números por aqui e eu tive que ir até a Itália falar com o pessoal da Newzoo, porque eles pegam esses números diretos na matriz de cada uma nos EUA e no Japão. Nós, da ACIGAMES, fizemos Censo Gamer com 2002 entrevistas e uma margem de erro de 2%. Nossa pesquisa mostrou que apenas 4% de mulheres jogavam. Por isso, nós fomos muito criticados. Com a ajuda da pesquisa da Newzoo, chegamos em um número de 44% de mulheres jogadoras, incluindo jogos em redes sociais como Facebook e Orkut. O grande problema nesse tipo de pesquisa é o custo, porque um levantamento da Newzoo chega a custar pelo menos 10 mil euros. Infelizmente, ninguém quer pagar por uma pesquisa com essa qualidade no Brasil.

Por qual motivo a ACIGAMES decidiu abrir um escritório em Miami? Com quais empresas vocês conversaram e fecharam contratos?

A falta de interesse do nosso governo nos fez buscar novas fronteiras e oportunidades fora do Brasil. Iremos auxiliar empresas na participação de feiras internacionais, desde a compra de ingressos para eventos ou palestras. Queremos auxiliar as pessoas no processo burocrático de abertura de empresa, além de prestar consultoria para buscar as melhores publishers, estudar as melhores propostas e auxiliar na área jurídica. Nossa ideia é trazer produtos, games e software brasileiros que possam ser lançados em diversas regiões da Europa, Ásia e no mercado norte-americano. A direção de nossa afiliada EUA ficará a cargo de um brasileiro, mas que reside na Flórida e tem uma ampla experiência em mercados internacionais, que é o nosso novo colega e diretor da ACIGAMES Miami Mario Aguilar.

Como você, Moacyr, vê o mercado nacional de jogos em nosso país? O que você acha dos games brasileiros?

Cada vez mais entusiasmado. Estive em Minas Gerais, no fórum mineiro de cultura e jogos digitais, e conheci uma empresa chamada Overpower Studios. Eles me apresentaram o trabalho deles, o jogo Scorching Skies, e outros dois games que eles estão trabalhando. Fiquei impressionado com a qualidade técnica deles e, sinceramente falando, nenhum me impressionou tanto como esse jogo para tablets. Outro exemplo que posso citar é o Past Memories da Give me Five, que foi o primeiro jogo nacional que comprei na Apple Store. Temos outros cases de sucesso, como o Knights of Pen and Paper e isso é ótimo. O que os estúdios precisam fazer? Mais jogos de qualidade para o mundo ver. O que me deixa triste é a questão da Lei Rouanet. Tivemos três jogos aprovados pela lei, sendo dois deles de associados da ACIGAMES. Fui atrás de várias empresas de grande porte para auxiliá-los e elas ficaram apenas na promessa, sem nenhum retorno da proposta. Pena que essas empresas não enxergam o potencial dos jogos. Como não gostar de um jogo com a qualidade técnica como a de Toren? Por que é tão difícil conseguir financiamento para jogos assim? É porque o mercado é novo e as empresas que tem dinheiro para apoiar ficam com o pé atrás porque o jogo é nacional, não importando a qualidade dele. Existe preconceito e eu espero que isso mude.

Já conversei Alex Mamed Jordão, um fã alucinado de jogos cuja coleção já ultrapassou 140 videogames e mais de 300 aparelhos. Você ainda preserva sua coleção de consoles? Ainda coleciona artigos de games como hobby? Ele quer fazer um museu de games. Você também gostaria de investir nisso?

Tenho minha coleção de games mas infelizmente não consigo mais ter tempo para colecionar. Meu sonho é abrir um museu dos games e doar toda minha coleção. Tentamos no Rio e em São Paulo, mas sem sucesso. Porém, Minas Gerais hoje se mostra favorável a um museu de games e é onde eu quero apostar minhas fichas. Criar um local para respeitar a memória dos games hoje é garantia de sucesso, difícil é convencer pessoas que não entendem os jogos como a linguagem do futuro.

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