Entrevista

“A contabilidade existe desde antes da escrita”, diz pesquisadora da equipe do game DEBORAH

Doutoranda em contabilidade, Tânia Nunes é fundadora junto com o professor Edgard Cornacchione do grupo de pesquisas que desenvolveu o jogo DEBORAH na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP).

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O projeto de tese de doutorado de Tânia Nunes envolvendo o DEBORAH Game foi laureado pela Academy of Accounting Historians com o prêmio Margit F. and Hanns Martin Schoenfeld Scholarship. O prêmio foi entregue pelo presidente da academia, Massimo Sargiacomo, em cerimônia realizada em Chicago, durante a reunião anual da American Accounting Association no mês de agosto de 2015.

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Dividido em quatro partes que refletem períodos históricos distintos – Antiguidade, Idade Média, Modernidade e Contemporaneidade -, o game foi anunciado em 15 de outubro como parte do curso de Cornacchione com o professor escocês Alan Sangster da Griffith University.  A segunda edição da disciplina de História da Contabilidade será oferecida pela USP em parceria com a plataforma online Coursera.

Geração Gamer conversou com Tânia pouco antes do seu prêmio com o doutorado, dentro da FEA-USP. Confira a entrevista para entender detalhes do projeto, que foi jogo do mês de dezembro de 2014 no G2 e também reconhecido pela entidade norte-americana Games For Change.

Há quanto tempo existe o DEBORAH?

Existe há três anos. Faço doutorado aqui na FEA e o projeto é financiado pelo CNPq. Ele foi montado pelo professor Edgard, mas o projeto abarca várias outras iniciativas. A minha tese de doutorado e outras, além de projetos de iniciação científica para graduandos daqui e de outros institutos, estão juntos. Já passou gente por aqui do curso de Desenvolvimento de Jogos da Anhembi, da Física da USP, da Computação, pessoal de Artes e muitas outras pessoas.

Tudo começou, o DEBORAH em si, porque em 2012 veio para a FEA um professor-visitante chamado Alan Sangster. Ele veio e ficou um semestre para lecionar só para pós-graduação um curso de História da Contabilidade. Eu estava entrando para fazer meu doutorado. Na época eu nem imaginava o que ia acontecer. Aquele foi o primeiro curso na pós e chegaria depois na graduação. Nada parecido era feito nem na maioria esmagadora dos cursos do setor, que são mais de mil no Brasil. Às vezes eles têm apenas algo como “História do Pensamento Contábil”, mas um curso inteiro focado nisso não é comum por aqui. Fora do nosso país há mais, mas não são muitos.

Muitas pessoas também tem uma noção errada do que é Contabilidade, acha que é o cara que calcula contas, que declara Imposto de Renda…

No caso de nós, jornalistas, é no máximo o contador…

E mesmo o pessoal que entra no curso tem uma imagem distorcida. “Ah, adoro matemática. Vou fazer contabilidade!”, eles pensam. O curso não é isso, não é de exatas. É de humanas, de ciências sociais aplicadas.

E como foi o restante da história?

O professor Alan Sangster veio e foi para uma universidade australiana, a Griffith. Pensamos que o curso foi muito bom e eu achei que mudou minha visão, com a companhia de cerca de 20 alunos. Que pena que tal experiência ia morrer naquele ponto. Pensamos todos juntos na sala do GETEC, Grupo de Estudos em Tecnologia na Educação da Contabilidade, registrado pelo professor Edgard no CNPq, que deveríamos aplicar o que aprendemos de diferentes formas no processo do conhecimento. O professor já tinha um desejo anterior de fazer um non-biological teaching ages, ou seja, eliminar o tutor na sala de aula, na minha interpretação.

Neste momento, quantos educadores entram na sala de aula para repetir o que ouviram e o que fazem em todos os lugares? Ficar repetindo. Será que não existe uma maneira mais eficiente de ensinar com os avanços tecnológicos que temos hoje? Não é possível tornar mais efetivo a disseminação de conhecimento? Que tal usar o tempo em sala de aula para outro tipo de atividade?

Até chegar no game foi um caminho, mas tudo foi fruto de um desejo de entender que as pessoas são capazes de aprender com a tecnologia. Elas não precisam necessariamente de um ser humano sempre disposto a explicar e repetir as mesmas coisas.

Conte-me do processo de criação.

As pessoas acham que a Contabilidade surgiu com Luca Pacioli em 1494, que teria sido a invenção das partidas dobradas. No curso soubemos que não era nada disso. Há mais de 10 mil anos de História da Contabilidade. Este senhor, o Luca Pacioli, tem grande importância e é reconhecido como o “Pai da Contabilidade”, mas ele teve a coincidência de ser contemporâneo do Gutenberg, o criador da imprensa. Pacioli então teve a oportunidade de criar o primeiro livro sobre o assunto que se disseminou impresso, a “Suma da Aritmética” que tem apenas uma parte sobre este assunto, nas últimas 30 páginas de mais de 600. A contabilidade existe desde antes da escrita como a conhecemos hoje.

Uma das fases do DEBORAH se passa na Mesopotâmia, três mil anos antes de Cristo, e mostra justamente as origens que tratamos no curso dentro da FEA, na USP. A ideia do jogo não é meramente remover o professor da sala de aula, mas pensar numa forma inteligente de passar conhecimento e é por isso que o projeto tem apoio pedagógico em contato com estudantes. Temos já um caso de uma educadora em Uberlândia (Minas Gerais) que já utiliza com os alunos dela. A meta não é eliminar o papel do educador.

Que ano, de fato, vocês começaram a criar o jogo?

Começou tudo em 2013 e fizemos até o prazo de outubro deste ano, obedecendo prazos de financiamento do CNPq para esta pesquisa. Procuramos outros métodos, incluindo chat board, com uso de inteligência artificial para práticas contábeis, mas no fim concluímos que poderia ser algo mais lúdico que a pessoa tivesse interesse em acessar mesmo sem ser por motivos acadêmicos. Os games seguem essa linha casual para serem realizados em alguns minutos com diversão, atração.

Em uma feira de talentos no Colégio Bandeirantes tivemos o caso de um menino de sete anos de idade que se interessou muito pelo jogo e apreciou as quatro fases dele. Os contadores são nosso público-alvo, mas o game não precisa ser só dele. DEBORAH foi desenhado para o graduando em Contabilidade, mas não há pré-requisitos para jogá-lo.

O planejamento ocorreu há dois anos atrás e em 2014 desenvolvemos os protótipos que foram enviados para o Games For Change. Entre mais de 90 finalistas, fomos selecionados para ir apresentar Colônia, na Alemanha. Também fomos destaque do Geração Gamer no final do ano passado. Pensamos em fazer vários mini-games, mas no fim optamos por quatro exatamente para mostrar cada era da História da Contabilidade.

DEBORAH é um acrônimo para essa história. Mas ela é um personagem?

Estamos desenvolvendo ela neste ano. Seria a versão feminina do professor escocês Alan Sangster que foi uma das pessoas inspiradoras neste projeto. É uma homenagem a ele. O professor Edgard também queria um nome feminino com significado, que é “Double Entry Bookkeping OR Accounting History”.

Tânia, qual é exatamente seu papel no projeto?

Sou doutoranda com uma tese relacionada ao game, termino ano que vem, inclusive, e tecnicamente eu pesquiso sobre a suposta “neutralidade contábil”. Fizemos o jogo para ver se os estudantes mudam com a percepção que tivemos do curso bem abrangente do professor Alan. Aqui no laboratório de pesquisas eu gerencio e coordeno as equipes de desenvolvimento, programação de design do DEBORAH. A parte artística está nas boas mãos da Eliana Dib.

O que você gosta de jogar e como você avalia esta experiência no DEBORAH?

Atualmente jogo games casuais no PC e não sou uma jogadora muito aficionada. Maior parte dos programadores que passaram na equipe também mais produzem do que jogam. Sou da geração do Atari e do Master System e joguei mais naquela época. O balanço do projeto me faz pensar sobre a tese e foi muito rica, muito oportuna. Pensa bem, eu estou trabalhando ao lado de dois programadores, oito artistas e sempre estou aprendendo aqui. É um outro universo e graças a Deus que é assim. É multidisciplinar e imagina quando é que eles acharam que eu iria aprender Contabilidade desta forma? Hoje em dia eu afirmo que quem trabalha aqui no laboratório sabe muito mais sobre a disciplina do que alunos da graduação. Gostaria de ter uma resposta mais específica pra sua pergunta, mas é difícil pensar sobre o quão bom isso está sendo. Eu estou muito feliz.

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