Entrevista

Brasileiros desenvolvem game inspirado na Faixa de Gaza em dois dias

Rodrigo Motta (31), desenvolvedor de games da Kaipora Digital de Campina Grande, na Paraíba, e professor do setor, criou o jogo Gaza durante a Game Boy Jam que ocorreu entre os dias 1º e 10 de agosto deste ano. No entanto, em entrevista ao site Geração Gamer, Motta explicou que fez o game em apenas dois dias. O criador é reconhecido pelo jogo Xilo, baseado em poemas de cordel do nordeste brasileiro, vencedor do SBGames 2011 e destaque no Festival Games Brasil 2013.

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A conversa passou pela criação de Gaza e a polêmica de um jogo que aborda um acontecimento geopolítico com guerra. Confira o depoimento.

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Quantos dias realmente vocês levaram no desenvolvimento?

A Game Boy Jam 3 que participamos para fazer o Gaza durava uma semana, mas devido a vários contratempos dos membros do time, trabalhamos de forma isolada e em apenas dois dias tivemos um contato mais próximo para a criação. O jogo tem 4 cores, com uma variação de um tom de verde bem característico dos jogos do Game Boy, com resolução de 160px x 144px. Só com os engines, motores gráficos, modernos conseguimos exibir o jogo numa resolução maior e com alguns efeitos de câmera, como um pixel art moderno. Éramos três pessoas: Eu com design e arte, Matheus Ferreira com arte e animação, além do Tiago Fernando com programação.

Quais foram os maiores desafios do game?

Pode parecer um jogo simples, mas na verdade este protótipo é bem complexo, porque nós criamos todo um ambiente “vivo” onde os moradores estão lá e diversos personagens estão também interagindo. Diversas coisas afetam os personagens do jogo, como snipers, bombas, frio, fome, o mar e o deserto. Além disso é um jogo que você controla três personagens ao mesmo tempo e tem que gerenciar as vidas deles com seus skills. Essa parte técnica era um pouco complicada, mas percebemos que a representação do ambiente e o próprio desenrolar do jogo é que é a parte mais difícil. No fim, recebemos muitas críticas quanto ao jogo ser bem frenético. Isso é algo que vamos modificar com o tempo. A ideia também é colocar um pouco mais de narrativa e abandonar de vez o lance arcade, pois utilizamos esse recurso pra fazer um jogo curto de game jam, que não é bom como produto.

Quais foram os melhores momentos na criação deste jogo?

Pra mim os melhores momentos foram as pesquisas que fizemos, identificando aspectos reais da Faixa de Gaza. Usamos frases e momentos no jogo baseados em tweets reais de moradores de Gaza. Isso foi bem legal. Não foi um momento feliz, mas foi um momento de conhecimento. Então diversas frases dos personagens do jogo são baseados nestes tweets. Além disso, o momento quando o jogo funciona e fica bonito, do ponto de vista do que aquela estética permite, também é um momento legal no desenvolvimento.

Você acha que faltam jogos que falem sobre política com este teor?

Em nossa pesquisa, encontramos dois jogos sobre o conflito na Faixa de Gaza: Um que não conseguimos jogar, pois ele havia sido banido de todas as lojas e não conseguimos baixar. O outro é um jogo onde você evolui uma base de mísseis e fica o tempo inteiro bombardeando a Faixa de Gaza. Resolvemos mostrar como se o jogador fosse um observador que acompanha uma família tentando sobreviver num bombardeio. O jogo é um arcade, então você sempre morre pois ele vai ficando bem difícil.

Acredito sim que jogos devem falar de diversos temas mais complexos. Muitos deles já fazem isso, utilizando cenários fictícios, mas acho importante tentar fazer uma referência mais real ao nosso tempo. Conheço várias histórias em quadrinhos que retratam a Palestina, mas quase nenhum jogo representa muitos dos fatos que acontecem lá.

É importante existir games que mostrem os males da violência, sem necessariamente divertir?

Acho que o conceito de divertir é bem amplo. Assistir um filme de guerra, mesmo que dramático, também é um tipo de divertimento. E acho sim que é importante que existam games que mostrem diversos males, não apenas a violência. Recentemente me envolvi num projeto de um jogo que trata do Trabalho Infantil e do Trabalho Escravo no Brasil. Esse tipo de coisa acho sensacional para os games. Até nos jogos em que a diversão é a violência, eu acho possível mostrar o outro lado da moeda, ou seja, proporcionar diversão e trazer sempre aquela pontada na consciência do jogador.

Motta, apesar da rapidez, o jogo ainda não está pronto. A versão final tem data para chegar?

Vamos soltar uma nova versão, talvez um trailer, no primeiro semestre de 2015 com muitas mudanças. Este é um jogo que queremos fazer utilizando muito feedback de quem vê e joga o jogo. É um projeto que, apesar de ter um tema sério, pra gente ele é meio despretensioso e nasceu de uma jam, uma reunião de desenvolvedores. Vamos usar esse cenário pra trabalhar de uma forma diferente. As mudanças serão muitas e o jogo se tornará um gerenciamento com elementos de narrativa. Um RPG de ação, talvez. Ele será colorido e não apenas com as 4 cores. E será em alta resolução. Vai continuar pixel art, porém com uma tela maior e ambientes mais detalhados. Obviamente vamos incluir mais features que estavam planejadas desde o protótipo e que não deu tempo.

 Você teve algum feedback de jogadores americanos ou judeus sobre o game?

Sim, tivemos feedback de americanos, de judeus e de moradores do Oriente Médio. O jogo saiu em alguns sites americanos e algumas pessoas postaram comentários. De um modo geral o público ficou bem dividido entre os que apoiam 100% um jogo que mostra que as vidas dos cidadãos comuns, o povo de Gaza, passa a não valer nada durante os bombardeios e conflitos. Lá os civis estão sendo mortos e isso precisa ser denunciado para essas pessoas. Outros dizem que a guerra lá não se resume só a isso. É obvio que sabemos que não se resume a isso, mas este foi um dos aspectos que escolhemos para mostrar no jogo. Em todo caso, os feedbacks estão sendo importantes pra gente entender como atender o provável público do jogo.

Há alguma possibilidade da Nintendo levar o jogo de vocês para o Game Boy? Ou foi apenas uma brincadeira?

Foi bem legal trabalhar como se fizéssemos um jogo do Game Boy, inclusive fiz uma arte em que uma criança segura um gameboy ensanguentado. Mas acho que existe chance 0 dele rodar no portátil (risos). O jogo também não tem mesmo a cara da Nintendo. Mario não duraria um minuto em Gaza.

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2 comentários sobre “Brasileiros desenvolvem game inspirado na Faixa de Gaza em dois dias

  1. Pingback: 10 notícias que mexeram com a cena brasileira de games – 31/10/2014 | Geração Gamer

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