Entrevista

“Games no Brasil se estruturarão em dois anos, mas precisam de dinheiro”, diz diretora da ABRAGAMES

Eliana Russi é diretora-executiva da Associação Brasileira dos Desenvolvedores de Jogos Digitais (ABRAGAMES) e também dirige o BIG Festival, que ocorreu entre o fim de junho e o começo de julho deste ano, reunindo 12,6 mil pessoas, entre público e desenvolvedores de games. Para dar um panorama sobre o mercado nacional, Geração Gamer fez uma entrevista com a executiva.

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Foto: Divulgação/FD Comunicação

Confira a conversa com a diretora da ABRAGAMES, a associação nacional de desenvolvedores brasileiros.

Além da ABRAGAMES e do BIG, você também é gerente do Brazilian Game Developers (BGD). Me explica melhor o que é isso?

É na verdade uma parceria entre ABRAGAMES e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). Nós levamos games para fora do país. Existimos há 11 anos como associação e eu fazia parte da organização da Apex. Lá eu fazia esse mesmo trabalho, mas com televisão, de levar a indústria brasileira para o mundo. Fazia também o contrário, trazendo o que estava fora para dentro do nosso país.

Em 2011, eu estava convencida que a linguagem deveria ser a do videogame. Íamos convergir para isso. Tivemos então a grata surpresa de ganhar o único edital que teve da Telefônica naquela ocasião para arte e tecnologia. Foi isso que gerou o primeiro BIG Festival.

Como eu tinha experiência com isso, eu me comprometi a montar uma rodada de negócios internacional convidando a Apex, o BNDES e o governo do estado de São Paulo. A gente gerou uma nova capacidade de gerar negócios em videogames.

Após o primeiro BIG, foi natural que a Apex nos procurasse para montar um projeto. Foi assim que surgiu o BGD, como uma estratégia de internacionalização de empresas e de produtos de games brasileiros.

Essa iniciativa permitiu nossa participação em visitas ao Google, Electornic Arts (EA) e outras grandes empresas. Fretamos um ônibus e fomos passear. O BIG Festival é o contrário disso. É quando conseguimos fazer os olhos do mundo se voltarem ao Brasil.

Quais são as oportunidades que as pessoas tiveram no BIG Festival?

Nós fechamos parcerias com cursos de desenvolvimento de jogos de instituições como a Anhembi Morumbi. Entre os desenvolvedores que vieram ao festival, também é possível conversar com representantes de grandes publishers de jogos digitais. É uma oportunidade para reunir gente, dos pequenos aos grandes, e discutir qual é o cenário no Brasil.

No BIG, nós tivemos um game brasileiro concorrendo ao posto de melhor jogo, o Treeker. Notamos também a maior participação dos indies brasileiros. Qual é a tua visão do mercado?

Eu acho que a ABRAGAMES está conseguindo auxiliar os desenvolvedores neste cenário. A comunidade de desenvolvimento de jogos, pelo menos aqui em São Paulo e de outros estados como Porto Alegre e Recife, é muito unida, eles são muito unidos. Todos têm redes sociais próprias. Eu acredito que no primeiro BIG Festival, em 2012, eles reconheceram, pela primeira vez juntos, que havia muita coisa sendo feita aqui.

Naquela mesma ocasião, eles também visualizaram o que há de melhor feito no mundo dos jogos internacionais. Essa percepção aprimorou as capacidades técnicas desses jovens desenvolvedores. O programa que a ABRAGAMES faz para levar as empresas que estão prontas para o mercado internacional, via BGD, traz transformações quando essas startups voltam ao Brasil. O conhecimento é repassado entre eles, até entre os que não foram na Gamescom, Game Developers Conference (GDC), entre outros. Estamos também promovendo o BIG SPIN, trazendo convidados que dividam experiências com os desenvolvedores no Centro Cultural São Paulo.

Vejo o momento atual com muita importância e acredito que, no máximo em dois anos, a gente passa a ter uma indústria estruturada e significativa no planeta. A situação já melhorou muito nos games do Brasil, mas pode ir além. A gente tem a dificuldade de competir com países que são muito diferentes do nosso.

Como assim?

Eles são países ricos e propensos ao investimento de risco. Esse é o caso dos americanos e de tudo o que há no Vale do Silício, Seattle, entre outros lugares. Os investidores compram porque querem, de verdade, aplicar em inovação. Aqui não tem isso. O investidor brasileiro é avesso aos riscos. Outros países, como Canadá, já chegaram ao patamar de maiores produtores de jogos eletrônicos do mundo. Coreia do Sul, França e Cingapura se situam no mesmo nível.

No caso desses, há políticas de governo que valorizam a indústria dos videogames. Eles se encaixam nas políticas públicas. São editais e aplicações setoriais que ajudam os desenvolvedores, ao lado das linhas de financiamento.

O que esses governos de fora planejam de longo até médio prazo é que a indústria de games floresça. Eles não pensam em jogos só como entretenimento, com valor de 85 bilhões de dólares e tal, mas pensando como algo de acesso. Games podem estar na saúde, na mobilidade, na educação e ele permeia vários setores da economia. O Brasil ainda está por fora dessa onda.

É prejudicial pra todo mundo, não é?

É uma tristeza, na verdade. Isso é uma janela de oportunidades. O que a gente está tendo no Brasil, isso porque as tecnologias estão disponíveis, apesar de existir dificuldade no acesso aos kits de desenvolvimento, são mudanças rápidas. É o que o pessoal da Sony fala, além da Microsoft. Eles acreditam que é mais dois anos para a coisa toda se estruturar. Mas a gente precisa de dinheiro para fazer games no Brasil. A indústria precisa de dinheiro.

Não adianta só ter desenvolvedores autorais, tentando fazer o próprio jogo. A gente precisa de uma indústria com escala e que entregue game todo ano. Cada ano tem que ter um lançamento novo. É isso que está faltando aqui.

Mas há coisas boas sendo feitas no Brasil? 

A onda tem sido boa. Temos, além do BIG Festival, Full Metal Wars, Toren, Ballistic e Horizon Chase. Devo ter esquecido de alguém, mas tudo bem. Eu tô há três anos neste segmento de videogames e nunca tinha visto uma safra de tantos jogos tão bons.

Eles são lançamentos globais. Não são lançamentos de outro tipo, mas podem emplacar lá fora e em qualquer mercado. Acho que a gente tá muito, muito, perto de dar espaço aos casos de sucesso.

Vamos fazer jogos para exportação, então?

Na verdade, game não tem pátria. Uma criança japonesa não sabe que o Bob Esponja não é japonês. Jogos viajam muito bem e é só localizar na cultura e na linguagem daquele país para ele estar lá. Tanto faz de onde ele veio. A gente não precisa, como brasileiros, fazer jogo do Saci Pererê. A gente não precisa tanto mostrar a cultura brasileira e sim a competência que nós temos.

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